Jornalismo Literário: O conteúdo precede a forma

Por Wellington Carbone

 

Desmistificar os preconceitos que existem em relação ao jornalismo literário. Fugir de temas comumente inerentes ao segmento que façam com que este seja mal visto, mal aproveitado ou mal compreendido. Tendo em vista a idéia de elucidar os estudantes que compareceram à palestra sobre o tema, o jornalista e escritor Sérgio Villas Boas esteve na Unisanta neste dia 30, e discorreu sobre o gênero sem regras.

“Não tem que ter textos grandes, não tem que ser refém desta, ou de qualquer outra regra que lhe digam”, exclamou aos estudantes de todo o país que lotaram as dependências do Consistório. Para construir textos que traduzem história – e, o mais importante, contexto –, o jornalista defendeu que a pesquisa é a chave mestra desta forma de jornalismo. ”O principal aspecto da tônica literária é a fundamentação de textos. Sem isto, os textos podem ser até ‘bonitinhos’, mas não terão conteúdo”.

A menção foi feita às novas publicações como a Piauí, que, de acordo com palavras dele, esbanjam forma, mas se perdem em conteúdo. “Tudo hoje em dia é muito plástico e há preocupação excessiva com a forma, que é importante, mas não como o conteúdo”.

 

Enfim, os textos têm que ter embasamento. Como conseguir isso? Há de se demonstrar também erudição, repertório e outros aparatos que traduzem a veia que Truman Capote, Fernando Morais, Ruy Castro e tantos outros construíram. “No caso deles, o que houve é mais do que um aprofundamento do tema. Aconteceu envolvimento total, mas sem comprometer o conteúdo ou deturpar algo”, analisou.

Porém, há raras exceções. Um exemplo é a de jornalistas como Gay Talese, que escreveram biografias sem sequer ter conhecido o protagonista da história. E o mais impressionante: fizeram isso por opção. “O caso de Talese, ao escrever a obra sobre Frank Sinatra, é absolutamente antológico, algo raríssimo. E ele pôde ter conhecido o autor, mas escolheu não fazer isso”, avaliou.

Exemplificou também outras formas de escrever, ou de contar histórias. Como a contada pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, no escândalo Watergate, que culminou com a renúncia do então presidente norte-americano Richard Nixon, nos anos 70. Segundo o jornalista, um verdadeiro making off.

“Foi uma história otimamente bem contada, onde todos sabem qual será o desfecho dela. Só que os porquês têm que ser entendidos, extendidos e, o mais importante, explicados. E foi o que aconteceu”, ressaltou.

Porém, use a forma com moderação. A história tem que ser esmiuçada em todos os porquês mais importantes com várias fontes consultadas. “Não devem ser feitas panacéias sobre o uso desta forma de escrever! As situações têm que ser muito bem escolhidas!”, alertou o jornalista.

Entretanto – e entre tantas as formas de se escrever –, a realidade é outra. O gênero carece de nova safra de jornalistas literários. E a causa disso? Vem da estrutura da educação, conforme Villas Boas. “O país carece de bons jornalistas deste gênero porque as universidades sequer têm bons professores habilitados para isso. O resultado desse déficit são os alunos”, finalizou.

Para as estudantes da Puc – Campinas, Natália Lago, 21, e Regiane Almeida, 22, a palestra foi proveitosa: “Nosso TCC é sobre jornalismo literário e conseguimos acrescentar ainda mais elementos para nosso trabalho”, disse.

4 Respostas to “Jornalismo Literário: O conteúdo precede a forma”

  1. carlos gustavo yoda Says:

    Muito legal, el Carbone.. trouxe boas informações, mas acho que faltou um pouco de pegada na abertura, em conseguir extrair das informações que o sérgio passou o que seria a notícia, a declaração ou a constatação a se destacar para justificar a matéria. O tal do ‘e daí?’ que não se explica em lide algum que tenha como centralidade o fato de alguém falar em algum lugar. Importa, na verdade, o conteúdo do que o cara falou, e só para dialogar com o que ele disse, dei uma ajeitadinha no título, apenas.. abreijos, yoda..

  2. Carbone Says:

    Hehehehe … E eu que fiquei com “medo” de colocar a notícia. Eu havia pensado no – para mim – óbvio anteriormente, ou seja: “Villas Boas falou que é deficitário o jornalismo literal às universidades e que, por esse motivo, não há nova safra de escritores do gênero”. Seria um lead óbvio, uma notícia óbvia, mas que, não sei porque, não coloquei assim.

    Talvez eu tenha pensado no fato de nosso blog ser de um gênero cultural e que, assim sendo, o tipo de texto seria diferente. Por isso optei pelo “e daí?” na abertura.

    Porém, mesmo considerando as duas coisas, você tem razão. É que foi a maledetta da pressa… A palestra terminou às 17 horas e entreguei o texto pelas 18…. Heheheh abraços

  3. carlos gustavo yoda Says:

    o blog é para ser assim, mesmo. coisas rápidas. na grande reportagem que aprofundaremos as coisas.. fora isso, sobre forma, teu texto é excelente, só que ainda o sinto amarrado a produzir como se estivesse escrevendo para um jornal laboratório da unisantos em alguns momentos. tenta se libertar disso para contar a história que você contar no blog, e principalmente quando for escrever a reportagem.. pensa no que é interessante nas coisas e que outras se relacionam a ela, pensando em como tudo se insere no debate sobre diversidade cultural..

  4. Guilherme Varella Says:

    Como chover no molhado à vezes faz bem, aproveito e chovo. Acho falaciosa a discussão que desvincula forma de conteúdo. Como quando se quer preferir, preterir ou preceder uma a outra. Simbioticamente, forma e conteúdo se retro-alimentam, transferindo entre si os valores que guardam. De nada adianta um argumento de texto que, no cerne, rompa estruturas, dentro de uma forma, suporte ou veículo que, pela rigidez, vão contra tal ruptura. Assim como é inútil a chacoalhada estética desprovida de conteúdo. Nesse sentido, achei o texto bom, objetivo, como flecha no alvo. Mas talvez, para esse alvo, melhor fosse um tomate o invés da flecha.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: