Commons: Quebra de monopólios e o retorno da cultura hacker

O Intercom 2007, sediado na cidade histórica de Santos, no litoral sul do Estado de São Paulo, teve momentos peculiares, oscilou como todo grande evento em bons e maus momentos. A “gafe” trazida a público pela repórter Diana Gonzales, uma troca de bandeiras, poderia estremecer a relação com nossos hermanos argentinos, contudo os pontos altos, e o bem mais importante, que é a discussão intelectual em busca do aprimoramento da comunicação, ofuscaram quaisquer erros de organização do evento. Seguindo essa linha de raciocínio, pode-se destacar um advento que roubou a cena neste Intercom. A Internet.

Tão simplória, de fácil acesso, encontrada em muitos lares, lan houses e por iniciativas gorvenamentais ou não, em muitas, embora esse número não seja satisfatório, escolas públicas e em toda a rede de ensino privada, a internet mereceu um espaço singular para a sua discussão.  O assunto giram e torno de portais de relacionamento como o Orkut, o Messenger, a linguagem de internet que ocupa cada vez mais espaço no cotidiano, entretanto a questão é muito mais ampla. Nos remete a um antigo dogma, que na verdade é muito mais atual do que a Internet, a questão dos monopólios.

Segundo o palestrante, doutor em Ciências Políticas, e professor da pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero,  Sérgio Amadeu, militante assumido do movimento pró softwares livres, a guerra pela monopolização nos formatos de documentos travada pela Microsoft é totalmente contrária ao sentido de Commons, o comum, finalidade para a qual a Rede foi criada, contrariando ainda a denominada cultura Hacker.  A cultura Hacker nada mais é do que o colaborativismo, a livre troca de informações através da criação dos protocolos TCP/IP.

Entretanto, a obsessão pelo lucro da Microsoft levou-a a criar um formato no qual pretende transformar no padrão mundial, o OpenXml. Militantes contra esse monopólio defendem a utilização do ODF, Open Document Format, que possibilitaria sua utilização em qualquer plataforma de gerenciamento. A França já se pronunciou contrária formalmente junto a ISO, contudo a Suécia foi favorável e a Austrália se absteve de voto. Junto à ABNT (Associação Brasil de Normas Tecnicas), a Microsoft sofreu uma derrota, com a negação do formato pela China. Nesse caso, se mais algum país se posicinar contrário à Microsoft, poderá deixar de arrecadar uma grande fatia de sua absurda lucratividade anual.  

O Saldo dessas adesões é positivo, e acena para uma esperança no retorno da cultura de livre troca de informação, sem os monopólios do Capital Privado. Existem muitas questões a serem discutidas, além de muitas batalhas a serem travadas. Em entrevista exclusiva à Oficina Itinerante do 100canais, Serigo Amadeu comentou, com um pouco de espanto, porém feliz pelo espaço aberto no Intercom – Santos – 2007 para estas questões. De acordo com ele, as edições anteriores não tinham esse tipo de discussão, e curiosamente neste evento, ao mesmo tempo em que discutíamos os moldes atuais, outra sala se dedicava ao pensamento dessa mesma corrente.

Assista à entrevista em vídeo no Youtube – http://br.youtube.com/watch?v=9ftnncArfRg

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3 Respostas to “Commons: Quebra de monopólios e o retorno da cultura hacker”

  1. Eduardo Says:

    Muito boa a sacada. Aliás, todas as matérias conseguiram capturar em profundidade as questões debatidas no Intercom. Tirando queixas de lado, muitos pontos pertinentes tiveram êxitos no evento.
    Ao ver o vídeo da matéria, ler o texto, lembrei-me da Naomi Klain, em seu livro “Sem logo”, sobre a formação de redes de militantes por meio da internet. Este mesmo grupo que apoderou-se da visão mercantil-bélica ianque sobre a internet, transformou-a em plataforma de mudanças sociais. Mesmo sem a cobertura das “mídias tradicionais” muitas transformações sociais (e, por sua vez, ações em campo) têm acontecido.
    Eu me considero híbrido em relação às tecnologias. Eu ainda sou ligado ao livro, à música, ao teatro, ao cinema, de forma visceral. Lendo o Ruy Castro, na folha de hoje (05/09/2007), a qual ele questiona o tempo de uso da internet e aponta (com ironia) um prognóstico para o futuro (jornalismo, tecnologia, pesquisa, consumo on-line), pergunto-me: Existe o medo do poder de comunicação da internet por parte dos conglomerados da indústria da informação? Seremos a mola que resiste? Seremos!

  2. carlos gustavo yoda Says:

    boa, cecito.. tema difícil para quem não está dentro do movimento. mas acho que você pegou o jeito, para uma primeira nota. a entrevista em vídeo está muito boa.. foi bacana termos pautado isso antes, e agora acho que você já sabe os caminhos para fazer uma discussão mais aprofundada sobre cultura livre. vale lermbrar as iniciativas que já acompanhamos no fórum internacional de software livre esse ano e no festival criei tive como! e lincar o debate com os problemas pontuais atuais e o universo do debate em políticas públicas sobre cultura digital, metareciclagem etecétera.. abreijo, yoda..

  3. Bráulio Araújo Says:

    Gostei bastante da reportagem! Deu para sacar nos poucos parágrafos a problemática em torno da arquitetura dos documentos na rede.
    Ler a reportagem me fez lembrar da tese do professor Lessig de que hoje leis são feitas com o código, com a internet. Se hj o controle por meio do direito (direito autoral) não é eficaz e os “monopolistas” buscam arquiteturas tecnológicas para manter seus privilégios. É a lei sendo feita pelas tecnologias (code law, como disse o Prof Lessig), proibindo mesmos os usos permitidos pela lei ou pelo autor.Tomara que a Microsoft continue sofrendo essas derrotas! Abs, Bráulio

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